Carta de uma lagarta à borboleta

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Eu sei que estamos em situações similares mas intrinsecamente diferentes. E eu só queria dizer que depois de chegar aqui e da dificuldade que foi tive em ficar a vontade (dificuldade que não acabou mas que tem diminuído) eu comecei a pensar que sou como uma lagarta que vai se alimentando das coisas daqui. Dessas realidades, sabores, cheiros, linguagem, costumes, cultura. E a lagarta de bucho cheio faz seu casulo.

O meu casulo já foi Recife e eu fui embora de lá, escolhi sair sem ter volta. Voce escolheu vir para depois voltar. Mas é uma jornada igual, mesmo sem ser. A gente vai ser lagarta em outras plantações.Vim ser lagarta aqui. Vai chegar o dia que serei borboleta. Não sou ainda, ainda tenho muito bucho para encher. O meu casulo aqui, quando eu começar a tecer, vai ter resquícios do outro que eu deixei pra trás, mas vai ser diferente, com outros detalhes que eu não tinha em mim antes de partir.

A vida fica mais rica quando a gente se solta no mundo, eu acho. Eu gosto de pensar que sim. Fica mais dura sob certos aspectos, mas fica mais leve sob outros. Fica solitária, mas isso ela sempre é. A gente gosta de brincar que não, mas no fim é sempre a gente lendo o mundo e os outros. Inventando estórias para entender as coisas, como elas são e como acontecem.  Gosto de inventar essa estória que largar o casulo de lá e me meter a tecer um outro fez a minha vida ficar mais rica, gosto de pensar que fiquei mais leve, mas não tenho certeza se é verdade.

E quando eu finalmente for borboleta as minhas asas vão ser bordadas de maracatu e poutines, de invernos gélidos e  outonos coloridos , de mares, de sol e de sal. Vou ser borboleta e trazer nas minhas asas os forrós de mangaio e as framboesas e amoras colhidas no pé, tapioca, munguzá e mariola. Tarecos, donuts e chocolate quente. Escorregar na neve. Vai ter no farfalhar da minhas asas, a zabumba, o triangulo, e uma orquestra de frevo. Mas vai ter também o barulho crocante das folhas secas que cobrem o chão no outono. Vou ser borboleta e andar por aí mostrando as belezas que vi e que sou.

E sobre as ausências, eu aprendi, nem sempre são dor. Ausências pode ser vida, pode ser alívio, pode ser realização, pode ser encontro até. É verdade que quando é dor a ausência parece ser bem maior. Mas isso, me parece, é porque ausência é como uma sombra e dai que quando voce muda de posição, de acordo com a luz, ela aumenta ou diminui. Não tema as pedras. Elas são feitas de ar.

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