Vida, morte e funerais. O Rio

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Um dia acordei com essa ideia. Talvez por reflexo dos anos, talvez só a resposta a uma certeza. Talvez a resposta há algum sonho que esqueci ter sonhado.

Tenho cultivado essa ideia por muito tempo. Mesmo depois de tê-la escrito no meu bloquinho, ela não se aquietou e agora depois de tanto tempo na minha cabeça e no caderno de rascunhos tomo coragem para escrevê-la aqui.

Tudo começou num dia quando acordei com uma música na cabeça. Isso me acontece com alguma frequência, acordar com uma música colada no cérebro e ela fica fazendo looping e fico cantarolando fragmentos dela o dia inteiro.

Acordei pensando em Riacho do Navio uma versão particular cantada por Luiz Gonzaga e Fagner. E lembrei imediatamente da época em que escutei-a repetidas vezes. Um verão em fizemos uma longa viagem de carro, acho que tinha 11 ou 12 anos. Acho também que foi o último verão que passamos em Paulo Afonso.

Fazíamos essa viagem anualmente, passávamos o verão nos dividindo entre as casas e piscinas de amigos da época em que moramos lá. Amigos da época em que eu nasci. Fazíamos essa viagem de carro, meu pai dirigindo as 12 até lá. Sempre fazíamos pausas durante a viagem algumas maiores outras menores. Parávamos sempre em Garanhuns, num desses postos de beira de estrada. Lembro da cocada branquinha que eu adorava comer.

Nesse ano esticamos até Aracaju para visitar outro amigo de papai.

Viajávamos num perua Ford, uma Belina branca. Na época em que cinto de segurança não era obrigatório. Papai montou uma pequeno ninho com almofadas no fundo do carro no meio da bagagem. Eu e minhas irmãs revezávamos esse espaço durante as horas tediosas de estrada.

Escutamos essa fita cassete de Fagner milhares de vezes durante essa viagem. Minha lembrança da música é dessa época. E a música se relaciona com o lugar por causa do rio.

O rio São Francisco é o lugar de onde eu venho. É o marco geográfico do lugar onde eu nasci. Nas suas margens, nas suas barragens que meu pai ajudou de algum modo a erguer. Meu pai deixou tanto dele naquele lugar. É um lugar que me traz tantas lembranças boas de dias felizes, de verões livres e cheios de aventuras. Tem muito de mim lá também. A aridez do sertão. A violência das águas. A correnteza do rio.

Então acordei pensando nessa música, pensando no meu fim, em onde quero que meu corpo fique quando a vida o abandonar. Esse pensamento é um tanto macabro, e bem egoísta. Não sei se pensaria nisso se estivesse morando no Recife. Provavelmente não. Não pensaria nisso se não estivesse aqui a milhares de milhas de distancia do lugar onde nasci. Mas o fato é que aqui estou e que percebi a importância que o rio perto de onde eu nasci tem na minha vida e em quem eu sou.

Decidi então que essa música e o rio são partes do ritual que espero que alguém faça na eventualidade da minha morte. Não quero enterros e lamentos. Quero uma cremação e a certeza que depositem minhas cinzas, num dia de sol, nas margens de um rio. Seja o São Francisco, seja o Saint Laurent. E que se possível que essa música esteja tocando, para embalar o meu trajeto rumo ao mar.

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